"Harold Crick está pronto para partir. Ponto final."
Se todo escritor tivesse o mesmo carinho que o roteirista estreante Zach Helm demonstra ter com seu protagonista em “Mais Estranho que a Ficção”, ler ou ir ao cinema certamente seriam hábitos muito mais prazerosos. E o mesmo vale para nós: se nos preocupássemos o mesmo tanto com as pessoas ao nosso redor, o mundo seria um lugar muito melhor de se viver.
Temos aqui um sujeito, Harold Crick (interpretado por Will Ferrell), que vive numa rotina absurdamente chata: acorda sempre no mesmo horário, escova os dentes sempre o mesmo tanto de vezes, vê sempre as mesmas pessoas no ponto de ônibus, e por aí vai. Não é de se espantar, portanto, que ele comece a ouvir uma voz narrando suas ações, como se ele fosse personagem de um livro e sua vida estivesse sendo escrita sem que ele tenha controle algum. Mas a tal voz não é um delírio: ela pertence a uma escritora (Emma Thompson) que tem devaneios suicidas e enfrenta um bloqueio ao tentar encontrar uma forma de matar o protagonista de seu novo livro: o próprio Harold. Só quando a escuta dizer que sua morte é iminente é que ele se dá conta de que algo precisa ser mudado – e rápido.
“Mais Estranho que a Ficção” é sobre não se prender a rotinas (daí o simbolismo freqüente do relógio em várias cenas, como a que mostra a janela da loja de Maggie Gyllenhaal como um relógio sem ponteiros – exatamente o que sua personagem representa para Ferrell). Pode parecer a maior pieguice do mundo essa “mensagem”, mas não adianta: naqueles momentos em que nos damos conta de que um dia vamos morrer é que vemos que a vida está passando e é preciso aproveitá-la. Mais do que isso, o que Helm nos fala neste filme é que preocupar-se com as pessoas, sejam as que fazem parte do nosso cotidiano ou de nossos pensamentos, é um valor essencial para vivermos em plenitude, porque, às vezes, nos esquecemos do que os outros têm a nos oferecer e acrescentar com suas próprias vidas.
Mais uma vez, pieguice. E você se pergunta: “Mas não era para ser uma comédia?” Não se engane: Ferrell faz sua graça habitual, mas este é seu personagem mais sério até hoje (Dustin Hoffman está mais engraçado do que ele). Na verdade, sério não é o termo mais apropriado. Eu diria que é seu personagem mais equilibrado, porque, afinal de contas, é isso que Helm procura estabelecer em sua história: equilíbrio – entre a tragédia e a comédia, entre o individualismo e a solidariedade, entre a matéria e o espírito, entre a realidade e a ficção (as duas últimas dualidades também foram trabalhadas pelo hábil diretor Marc Forster em seus dois filmes anteriores, “Em Busca da Terra do Nunca” e “A Passagem”, praticamente formando aí uma trilogia não declarada).
Criativo e possuidor de uma sensibilidade pouco comum no cinema contemporâneo (especialmente o feito em Hollywood), “Mais Estranho que a Ficção” é um filme que mexe com aquele lado da gente que parece ficar adormecido enquanto enfrentamos a famosa correria. E nos faz lembrar que um relógio quebrado pode nos valer horas muito mais proveitosas do que aquelas que seus ponteiros nunca se cansam de nos mostrar.
(direto do cinematório)
Temos aqui um sujeito, Harold Crick (interpretado por Will Ferrell), que vive numa rotina absurdamente chata: acorda sempre no mesmo horário, escova os dentes sempre o mesmo tanto de vezes, vê sempre as mesmas pessoas no ponto de ônibus, e por aí vai. Não é de se espantar, portanto, que ele comece a ouvir uma voz narrando suas ações, como se ele fosse personagem de um livro e sua vida estivesse sendo escrita sem que ele tenha controle algum. Mas a tal voz não é um delírio: ela pertence a uma escritora (Emma Thompson) que tem devaneios suicidas e enfrenta um bloqueio ao tentar encontrar uma forma de matar o protagonista de seu novo livro: o próprio Harold. Só quando a escuta dizer que sua morte é iminente é que ele se dá conta de que algo precisa ser mudado – e rápido.
“Mais Estranho que a Ficção” é sobre não se prender a rotinas (daí o simbolismo freqüente do relógio em várias cenas, como a que mostra a janela da loja de Maggie Gyllenhaal como um relógio sem ponteiros – exatamente o que sua personagem representa para Ferrell). Pode parecer a maior pieguice do mundo essa “mensagem”, mas não adianta: naqueles momentos em que nos damos conta de que um dia vamos morrer é que vemos que a vida está passando e é preciso aproveitá-la. Mais do que isso, o que Helm nos fala neste filme é que preocupar-se com as pessoas, sejam as que fazem parte do nosso cotidiano ou de nossos pensamentos, é um valor essencial para vivermos em plenitude, porque, às vezes, nos esquecemos do que os outros têm a nos oferecer e acrescentar com suas próprias vidas.
Mais uma vez, pieguice. E você se pergunta: “Mas não era para ser uma comédia?” Não se engane: Ferrell faz sua graça habitual, mas este é seu personagem mais sério até hoje (Dustin Hoffman está mais engraçado do que ele). Na verdade, sério não é o termo mais apropriado. Eu diria que é seu personagem mais equilibrado, porque, afinal de contas, é isso que Helm procura estabelecer em sua história: equilíbrio – entre a tragédia e a comédia, entre o individualismo e a solidariedade, entre a matéria e o espírito, entre a realidade e a ficção (as duas últimas dualidades também foram trabalhadas pelo hábil diretor Marc Forster em seus dois filmes anteriores, “Em Busca da Terra do Nunca” e “A Passagem”, praticamente formando aí uma trilogia não declarada).
Criativo e possuidor de uma sensibilidade pouco comum no cinema contemporâneo (especialmente o feito em Hollywood), “Mais Estranho que a Ficção” é um filme que mexe com aquele lado da gente que parece ficar adormecido enquanto enfrentamos a famosa correria. E nos faz lembrar que um relógio quebrado pode nos valer horas muito mais proveitosas do que aquelas que seus ponteiros nunca se cansam de nos mostrar.
(direto do cinematório)



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